Perfil do cientista brasileiro é apresentado por pesquisadora do DCC

Pesquisa revela que 4 em cada 10 jovens cientistas no Brasil estão desmotivados

Projeto realizado pela Academia Brasileira de Ciências vai compor ampla base de dados; Raquel Minardi, do DCC, é uma das coordenadoras do trabalho

A equipe responsável pela pesquisa O perfil do cientista brasileiro em início e meio de carreira apresentou, nesta semana, alguns dos resultados que serão publicados em breve, em relatório, pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), que realizou o projeto. As primeiras análises do survey revelam, por exemplo, que quase metade dos pesquisadores que concluíram doutorado entre 2006 e 2021 consideram que não vale a pena ser cientista no Brasil.

O projeto, criado em 2020 por um grupo de trabalho composto por 74 membros afiliados da ABC, recebeu 4.115 respostas válidas entre julho e agosto de 2022. O questionário foi divulgado para programas de pós-graduação em todo o Brasil e, com apoio do Itamaraty, para pesquisadores que estão fora do Brasil. A pesquisa abordou financiamento, bolsas de produtividade, liderança científica, internacionalização, diversidade e inclusão, divulgação científica e diáspora científica.

“Um dos objetivos do trabalho é formar uma ampla base de dados que subsidie as discussões e os esforços necessários para fixar os cientistas no Brasil”, afirma a professora Raquel Minardi, do Departamento de Ciência da Computação (DCC) da UFMG, uma das coordenadores da pesquisa. Ela informa que 17% dos entrevistados tentaram deixar o país nos dois últimos dois anos. Quase metade declarou que não vale a pena ser cientista no Brasil.

Assédio sexual e moral
A parte dos dados já analisada mostra que o universo dos jovens doutores no Brasil ainda é predominantemente branco (73%), enquanto pessoas negras (4%) e pardas (20%), que são a maior parte da população, estão muito sub-representadas. Oito pesquisadores se declararam indígenas (0,2%), e as mulheres são maioria (52%).

Uma das constatações mais graves do estudo é a de que 47% das mulheres e 12% dos homens sofreram assédio sexual durante a carreira. Quanto ao assédio moral, 67% das mulheres e 49% dos homens disseram já ter experimentado.

Dez por cento dos respondentes são bolsistas de produtividade do CNPq, e 80% desses pesquisadores são nível 2. Mais de sete em cada dez consideram difícil obter financiamento para pesquisas no país. Quase a metade dos entrevistados informou que divulga sua produção nas redes sociais.

De acordo com Raquel Minardi, o relatório não vai abranger todas as informações obtidas. Temas como saúde mental, recortes raciais para aspectos diversos da carreira e diferentes ângulos da diáspora serão explorados em artigos científicos.

Anonimato
Por tratar de tópicos sensíveis, o survey foi respondido de forma anônima e não pediu detalhes sobre áreas e pesquisas. As perguntas foram desenvolvidas com base em extensos debates entre os membros afiliados da ABC, nos quais eles compartilharam suas próprias experiências de carreira. O grupo contou com suporte de pesquisadores especializados no desenvolvimento de pesquisas de opinião e submeteu o projeto ao crivo do Conselho de Ética da Universidade Federal do Rio Grande Sul (UFRGS).

Além de Raquel Minardi, coordenam a pesquisa sobre o perfil do jovem cientista as professoras Ana Chies (UFRGS) e Jaqueline Mesquita (Universidade de Brasília), e o pesquisador Alessandro Freire (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).

*Matéria produzida pela Comunicação da UFMG com o portal da ABC

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