Aplicativo que multiplica conteúdo cria risco de ‘guerra sujaʼ nas eleições

seg, 02/04/2018 - 08:45
Português, Brasil
Avaliação é de estudiosos, que veem recurso usado por MBL como novo tipo de robô
O jornal O Globo mostra em reportagens que o MBL "escravizou" perfis de seus seguidores, publicando mensagens favoráveis ao movimento de forma automática e por meio de usuários reais. 
A equipe do Prof. Fabrício Benevenuto contribuiu para a reportagem realizando uma coleta de dados, cujo resultado indicou que 10% dos compartilhamentos do MBL foram feitos dessa forma.  As reportagens contam também com o parecer do professor.

 


Trecho da reportagem de Gabriel Cariello e Marco Grillo, publicada no jornal O Globo em 30/03/2018 às 9:37 

Por meio do aplicativo “Voxer”, MBL compartilhou suas postagens de forma irregular em contas de outros usuários

De olho na eleição de outubro, o Movimento Brasil Livre (MBL) encontrou uma forma de enfrentar a restrição recente imposta pelo Facebook às páginas na rede social e passou a publicar conteúdo em massa, por conta própria, usando o perfil de seus seguidores. Por meio do aplicativo “Voxer”, o movimento compartilhou suas postagens de forma automática em contas de outros usuários. No entanto, o Facebook desativou o “Voxer”, após ter sido procurado pelo GLOBO durante a apuração de uma reportagem sobre a estratégia digital do MBL.

A empresa entendeu que o mecanismo de compartilhamento automático de postagens violava as normas da rede social, porque permitia que o MBL também redigisse os comentários dos próprios usuários.

“O aplicativo Voxer foi removido por ferir nossas políticas para desenvolvedores, que visam garantir a privacidade e proteger os dados das pessoas”, afirmou o Facebook ao GLOBO.

Há duas semanas, o MBL enviou uma mensagem pelo Facebook para sua base de apoiadores pedindo autorização para reproduzir até duas postagens por dia no perfil de cada usuário. Os seguidores que aceitaram deram uma espécie de cheque em branco para o MBL. Desde o dia 16 de março, o grupo promoveu um compartilhamento em massa de conteúdos por meio das contas de outras pessoas.

“O Brasil precisa de você. O Facebook vem diminuindo o alcance de páginas de direita mas você pode fazer a diferença. Basta clicar neste botão e autorizar a página do MBL a publicar até duas postagens por dia no seu perfil. Clique no botão abaixo e faça a diferença. Clique aqui e ajude ou parar de receber”, escreveu o MBL.

O Facebook alterou, no início do ano, o algoritmo que orienta a exibição de conteúdo na linha do tempo de cada usuário, priorizando as mensagens publicadas por amigos e diminuindo a relevância do que é postado pelas páginas, como a do MBL.

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Fabrício Benevenuto, professor de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que o Facebook permite que aplicativos compartilhem conteúdos nos perfis dos usuários, como ocorre com jogos da rede social. Porém, até agora não era conhecida uma ferramenta que também escrevesse comentários como se fossem os próprios usuários. Segundo Benevenuto, cada usuário é responsável pelo que é publicado em seu perfil.

— A pessoa é responsável pelo que diz nas redes sociais. Se ela fala alguma coisa racista, por exemplo, ela é responsável. Cada vez mais a identidade online está mais próxima da identidade offline. Já existem casos em que o que a pessoa diz nas redes sociais é usado em processos judiciais. Permitir que o MBL poste no nome de outras pessoas é muito estranho. É a primeira vez que vejo algo assim, apesar de saber que é possível implementar. Você pode permitir que aplicativos postem para você. Isso acontece em joguinhos, por exemplo, que pedem esse tipo de permissão e muitas vezes colocam na linha do tempo dos usuários que a pessoa passou de fase ou ganhou algum prêmio. Agora, isso do MBL é novidade. No contexto político, pode ser usado claramente para aumentar as estatísticas de compartilhamento e aumentar a audiência do MBL — afirma Benevenuto, que estuda a dinâmica de interações nas redes sociais.
A pedido do GLOBO, Fabrício Benevenuto também acompanhou um compartilhamento automático do MBL pelo Voxer, realizado no dia 27. Ele identificou 462 perfis usados pelo grupo — cerca de 10% dos usuários que optaram por compartilhamento público daquele conteúdo no momento da pesquisa.
— Tem característica de automação. Vejo duas possibilidades. Quem desenvolveu a automação estava tentando não fazer todas postagens de uma vez, porque ficaria evidente que há uma mistura de postagens (orgânicas e do Voxer) e deixa disfarçado. E o outro é que o Voxer mantém notícia viva, fazendo aquela informação se espalhar por um período maior de tempo. Se eles fizessem todas as postagens imediatamente, dariam todas as evidências de que foram automatizadas. Do jeito que foi feito, fica disfarçado. É muito difícil de ser detectado automaticamente. Eles simulam o comportamento dos usuários comum. Simulam um espalhamento orgânico — explica o pesquisador.

 

Veja a reportagem completa

 


Trecho da reportagem de Igor Mello, publicada no jornal O Globo em 31/03/18 às 04h30

O risco de um precedente capaz de estimular “guerra suja” na campanha eleitoral de 2018. É essa a preocupação demonstrada por especialistas em tecnologia e redes sociais diante da informação, divulgada pelo GLOBO na sexta-feira, de que o Movimento Brasil Livre (MBL) utilizou um aplicativo, o Voxer, para replicar seus conteúdos nos perfis de centenas de usuários do Facebook. Após contato da equipe de reportagem, o Facebook decidiu excluir o Voxer.

Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da USP, questiona o fato de apenas os criadores do aplicativo terem sido punidos. Segundo ele, o mesmo tipo de medida deveria ser aplicada aos usuários e páginas que utilizaram o recurso. 

— O que houve é uma flagrante desobediência das regras da rede social. A questão é: quem violou isso foi só o operador do app ou também quem utilizou? Se o Facebook for negligente, essa eleição vai ser muito mais suja — adverte.

Na mesma linha, Fabrício Benevenuto, professor de Ciência da Computação da UFMG, crê que esse tipo de aplicativo — flagrado pela primeira vez na política brasileira — representa uma sofisticação maior em relação a outras estratégias usadas para veicular conteúdo político, inclusive fake news.

— Esse aplicativo traz um diferencial bastante preocupante. Até então a gente via muito o uso de bots (robôs). Esse aplicativo escraviza usuários do Facebook e os usa para fazer postagens para eles.

Ainda segundo ele, o recurso se torna mais perigoso se não houver nenhum tipo de consentimento explícito dos usuários. Benevenuto diz que é viável, do ponto de vista técnico, usar testes e jogos para obter esse tipo de acesso aos perfis de usuários. 

—É possível, porque o usuário muitas vezes aceita um aplicativo sem ler o que está sendo permitido. Já há muitos que recebem autorização para postar em nosso nome. Por exemplo, para divulgar em nossos perfis os resultados desses testes — explica.

 

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